Estamos Unidos cria memorial para nunca esquecer a vergonha da escravidão. (O Brasil deveria fazer o mesmo)

Foi por volta do ano de 1444 que os negros começaram a ser transformados em objetos de venda pública, e após a data de 1492 que o tráfico de pessoas escravizadas passou a promover uma integração entre África. América e Europa, integração essa que durou até o século XX.

O escritor Achille Mbembe já dizia em seu livro’A Crítica da Razão Negra’ que “transnacionalização da condição negra é um momento constitutivo da modernidade, sendo o Atlântico seu lugar de incubação”.

Quem mais recebia famílias de negros escravizados eram Brasil, Haiti, Jamaica e Estados Unidos, fazendo com que essas pessoas se despissem de seus costumes e culturas.

Na Geórgia e Califórnia do Sul eram onde podiam se encontrar a maior concentração de escravos e foi por conta da mão-de-obra negra que os ingleses foram libertados pelos produtores sulistas e uma nova dinâmica econômica foi criada nos Estados Unidos: a escravocrata.

Neste momento, se inicia o que ficou conhecido como período de segregação racial nos Estados Unidos. Segundo Achille Mbembe, que atualmente leciona na Universidade Witwatersrand, em Joanesburgo, emerge também o “capitalismo mercantil”, fruto do acúmulo riqueza por meio das plantações.

Foi a partir daí que muita coisa começou a mudar, dando abertura para o surgimento de grandes nomes, como Rosa Parks, que não cedeu seu lugar no ônibus para uma pessoa branca, em meio a uma Alabama racista dos anos 50.

Para mostrar como esse período foi um grande pesadelo na vida dos negros, foi criado em Montgomery, Alabama, um memorial mostrando toda a vergonha da escravidão, com mais de 4 mil pessoas que foram mortas e esculturas que chocam por retratar como era a realidade daquela época, o que envolvia homens, mulheres e crianças.

Luka Franca, jornalista, feminista e paraense radicada em São Paulo, o museu tem uma importância muito grande: “Quando vi que haviam construído esse memorial a primeira coisa que me veio à cabeça é de que finalmente em algum lugar no mundo há o reconhecimento do que significa o racismo para uma parte considerável da população mundial e que esse tema não é algo do nosso passado, mas está é real no nosso presente. Inspira a resistência contra o genocídio que sofremos em vários países do mundo e a disputa dura que travamos contra o encarceramento em massa e a guerra às drogas. Por fim, ter um memorial desses em uma região dos EUA que atrocidades sem tamanho foram cometidas contra o nosso povo demonstra que é possível sim que o Estado e a branquitude reconheçam seus erros e desenvolvam formas para que eles não sejam esquecidos e nem repetidos sem serem paternalistas ou condescendentes”, analisa.

O local teve como inspiração o Memorial do Holocausto, na Alemanha e também no Museu do Apartheid, localizado na África do Sul: “O debate sobre violência racial nos EUA tem ganhado cada vez mais fôlego nos últimos anos, tanto que temos o surgimento do Black Lives Matter, o debate sobre a agenda de desencarceramento tem ganho força e mesmo a disputa contra a política de guerra às drogas ganhou a opinião pública naquele país. Creio que a principal lição e inspiração a ser tirada com essa notícia é o fato de que lidar com o racismo é uma necessidade de uma disputa política da estrutura da sociedade de classes”, explica Luka.

O período de escravocrata e segregacionista dura até os dias de hoje, porém, desde o início da década de 1970 vem perdendo força gradativamente, entretanto, figuras impactantes são importantes para as gerações que vêm depois, como ressalta Bryan Stevenson, líder da ONG Iniciativa por Justiça Igualitária: “Ao passo que os cadáveres linchados eram erguidos e expostos para que toda a comunidade afro-americana visse, de acordo com o advogado, muitos dos descendentes dos autores desse tipo de violência nunca tiveram que confrontar essa brutalidade e falar sobre ela”.

Tendo o mesmo pensamento que Luka, ele também não crê que o racismo tenha sido mais explícito por lá, pois para ele, os negros brasileiros enfrentam preconceitos até os dias de hoje: “Foram de formas diferentes, mas no próprio Brasil o processo vivido no pós-abolição era de segregação em boa parte das cidades brasileiras. Mas acho que o fato de haver o Memorial Nacional para a Justiça e Paz em um país que massacrou e massacra sua população negra é um passo importante para que as próximas gerações não esqueçam do que significou a diáspora para nós, sabe? É um marco simbólico importante na disputa de corações e mentes contra o racismo. Seria algo muito bom se houvesse algo similar no Brasil, lembrando o que significou o processo de escravidão para a negritude e indígenas, a expropriação das terras e o genocídio que enfrentamos até os dias atuais. Algo assim garante a memória e a verdade sobre os crimes da supremacia branca e racista nos EUA”.

Reforçando mais essa ideia, os dados colhidos na pesquisa realizada pela Anistia Internacional identificou que a população negra brasileira é vulnerável em níveis alarmantes, Para deixar isso mais claro, o Mapa da Violência mostrou que a tacha de assassinatos de negros subiu em 18%, enquanto a de brancos, caiu 12%.

“Os efeitos tão demonstrados nos dados do último Atlas da Violência que foi lançado este ano, uma aumento brutal dos homicídios de jovens de negros e dos feminicídios de mulheres negras. Não nos acertamos realmente com o que significou a escravidão para negros e indígenas no Brasil abre espaço para que se diga que racismo é piada ou opinião, quando tem efeitos diretos na garantia de terras, de vida, de direitos como um todo. O Brasil tem um problema enorme em não conseguir superar diversos momentos assombrosos de sua história, passa pela escravidão e pela ditadura civil-militar, por exemplo, tanto que nossa democracia ao longo de todos os anos 1990 e esse início de século XXI tivemos dezenas de massacres no campo e na cidade que atingiram, especialmente, indígenas, negritude, trabalhadores rurais e defensores de direitos humanos. Superar nossa história com reparação real é um passo fundamental para combater os absurdos que vivenciamos nos dias de hoje”, pontua a jornalista e feminista Luka Franca.

Quase 54% da população brasileira é composta por negros, e não há muitos museus pelo país não que só retratam a escravidão, como também a falta desses lugares que exaltem a cultura negra. O baiano Emanoel Araújo é o gestor do Museu Afro-Brasil, localizado em São Paulo.

“Pra mim há dificuldade por conta de não lidarmos com o racismo como um problema estrutural da sociedade. Ganhamos as ações afirmativas, mas para elas serem efetivas precisamos de garantia de permanência e assistência estudantil nas universidades, de programas a combate ao racismo institucional nas autarquias que implementaram cotas em seus concursos públicos. Não existe pensar as políticas públicas de combate ao racismo se não se implementa de forma concreta as leis 10.639 e 11.645, ou quando não pensamos o combate ao encarceramento em massa, a desmilitarização da nossa segurança pública e uma série de outras medidas que combatem o racismo em sua raiz”, analisa Luka.

A representatividade tem papel fundamental na atualidade, pois ela faz com que a sociedade se torne mais igualitária e livre de qualquer tipo de preconceito, é preciso que haja um espaço na comunicação para falar livremente sobre isso: “Não existe pensarmos igualdade racial se não pensamos um processo efetivo de regulamentação e democratização da comunicação no país. É uma das questões importantes para se combater o racismo estrutural, para além disso é fundamental mudanças no nosso modelo de segurança pública, garantia de educação emancipadora e antirracista e uma saúde pública que realmente olhe pro que é a maioria da população brasileira. Garantir direitos iguais passa, pra mim, necessariamente por termos políticas universais que pensem o universal que realmente existe em nossa sociedade e não colocar como universal o estereótipo branco, masculino, hetero e cis que é imposto ao longo dos séculos como padrão de humanidade”.

About Rafael d'Avila

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Publicitário. 22 anos. Morador de São José dos Campos. Sempre curioso. Apaixonado por dinossauros, TV e filmes e séries de terror.